EQUILÍBRIO RESPIRATÓRIO
Teresa Cristina Velloso Silva – Prof. de Dakshina Tantra Yoga
Introdução:
Na visão Tântrica, consideramos os diversos desequilíbrios físicos, as doenças, como uma somatização de transtornos psíquicos causados, em última instância, por uma desarmonia energética em um ou mais Chakras.
O trabalho com o foco específico na respiração permite de modo silencioso e suave, às vezes, sem que percebamos quando aconteceu, a mudança de posicionamento e ângulos de visão do próprio mundo, facilitando enormemente a ruptura para novos horizontes.
Por assim dizer, a respiração e a consciência representam o remédio interior de cada pessoa, e nós podemos usá-lo a qualquer momento e sem efeitos colaterais. O centro físico da respiração está na medula espinhal alongada que forma a base do nosso cérebro. Todas as outras partes cerebrais se desenvolveram posteriormente no curso da evolução. O controle consciente da respiração, ao contrário, acontece na camada cortical do cérebro. Isso significa que cada respiração consciente estabelece uma ligação entre as formas primordiais arcaicas (arquicórtex ou cérebro dos répteis) e as regiões mais novas do nosso cérebro (mesocórtex e neo-córtex). É por isso que a respiração consciente pode nos ligar com antigas fontes de cura que ainda estavam à disposição dos nossos primeiros antepassados.
Vivemos a amplidão e o frio de todas as novas experiências ao inspirar. Nós expandimos a nossa caixa torácica, e o ar frio jorra para dentro. Também podemos com facilidade sentir o frio da inspiração no nariz. Ao expirar a tensão se desfaz, e o nosso corpo volta à calma e ao vazio, ou seja, à harmonia. Enquanto a inspiração rompe a calma no final da expiração, esta solta a tensão. Para a fecundação poder chegar à nossa vida, precisamos do solo nutritivo vivo da expiração e do impulso ativo da inspiração.
Bronquite Asmática – O que é?
Bronquite asmática é uma doença caracterizada por episódios de dispnéia (dificuldade em respirar), expiração caracteristicamente sibilante, o chiado, e tosse. Há um estreitamento dos pequenos brônquios e bronquíolos que, através de uma contração da musculatura lisa, pode causar um prurido inflamatório das vias aéreas, um inchaço alérgico e uma secreção das membranas. A falta de ar nos asmáticos não se trata de um impedimento da inspiração, como normalmente temos a impressão, mas sim da dificuldade da pessoa de soltar o ar que inspirou. Por falta de espaço não é possível a captação de novo oxigênio na quantidade adequada.
Uma leitura metafísica da respiração:
A respiração é um fenômeno rítmico que serve como um ótimo exemplo para a lei da polaridade. Os dois pólos, inspiração expiração, formam um ritmo por sua troca contínua. Um polo compensa o outro e ambos formam uma totalidade. A vivência da unidade gera confiança primordial.
Na respiração estão contidos os dois tipos de suprimento. Podemos controlá-los conscientemente – inspirar e expirar voluntariamente – , mas a respiração continua a fluir quando dormimos ou quando a nossa consciência desperta está desligada. Portanto, a respiração representa uma ligação entre nossas atividades exteriores, conscientes e a vida interior, inconsciente do corpo. Ela não liga apenas o consciente e o inconsciente, o dia e a noite, mas os dois lados do pulmão, também esquerdo e direito, e assim, masculino e feminino, respectivamente através do ativo e passivo. Ela junta até mesmo “em cima” e “embaixo”, pois cada respiração pode ser sentida no baixo-ventre, e por meio do diafragma, nosso principal músculo, são massageados os nossos intestinos.
Em sânscrito encontramos a palavra Atman (eu, o Ser), na qual podemos logo ver o elo que a liga à palavra germânica atmen (respirar). Na língua hindu, descobrimos também que uma pessoa que atingiu a perfeição é chamada de Mahatma, que significa tanto “grande alma” como “grande respiração”. Da doutrina hindu aprendemos também que a respiração é a portadora da verdadeira força vital à qual os indianos chamam prana.
A respiração nem faz parte de nós nem nos pertence. Não é a respiração que está em nós, porém somos nós que estamos na respiração. Por meio da respiração estamos eternamente ligados a algo que transcende a Criação, que está além da forma. A respiração faz com que essa ligação com o âmbito metafísico (no sentido literal: com o que está por trás da natureza) não se desfaça. Vivemos na respiração como se estivéssemos dentro de um útero gigantesco, que se estende muito além de nossa pequena e limitada existência, pois ele é a vida, aquele derradeiro grande mistério que não conseguimos explicar, nem definir, que só podemos sentir abrindo-nos e permitindo que flua através de nós. A respiração é o cordão umbilical através do qual esta vida flui para nós. É a respiração que faz com que continuemos fiéis a esse dar e receber. Os asmáticos lutam pelo ar; no entanto, há tanto ar em disponibilidade!
Alguns significados dos problemas respiratórios:
De todas as funções corporais que sustentam a vida, a respiração tem o papel mais importante. Nós podemos renunciar por um tempo prolongado à comida, à bebida, à dedicação ou até mesmo ao amor, mas sem a respiração não há vida. Ela começa com o primeiro alento e termina com o último: entre eles está tudo o que acontece conosco nesta vida. Ela é perceptível quando prestamos conscientemente atenção a ela, mas na maioria das vezes é inconsciente, não só quando dormimos e sonhamos.
Está ligada ao lado físico da nossa existência: nós respiramos mais depressa e profundamente quando fazemos um esforço físico. Mas ela também reflete os nossos estados sentimentais. Nós respiramos aliviados quando nos livramos de uma carga interior, ou prendemos o ar quando nos assustamos.
A respiração nos impede de nos isolarmos, de nos encerrarmos em nós mesmos, impede que tornemos as fronteiras do nosso eu inteiramente impenetráveis. Devemos estar cientes de que o inimigo respira o mesmo ar que nós inspiramos e expiramos. O animal e a planta também. É a respiração que nos liga continuamente a tudo o que existe. Não importa o quanto o ser humano tente se isolar, a respiração o vinculará a tudo e a todos. A respiração, portanto, tem algo a ver com contato e com relacionamento. Proximidade e carinho se expressam pela pele, mas também agressões na forma de pancadas. Podemos controlar conscientemente todo contato que estabelecemos através da nossa pele, ao passo que o toque do nosso segundo grande órgão de contato, os pulmões, está fora de qualquer influência. Podemos determinar nós mesmos se damos a mão a alguém, mas temos de respirar o mesmo ar que todas as outras pessoas respiram. Estamos ligados com todas as criaturas vivas e com a vida propriamente dita no círculo infinito, e essa ligação se mostra para nós na respiração. Portanto, convém usá-la para cuidar da nossa saúde e desenvolvimento. A respiração associada é uma oportunidade ideal para descobrir a própria ordem interior.
Esse contato entre o que vem do exterior e o nosso corpo acontece nas vesículas pulmonares (alvéolos). O pulmão é o nosso grande órgão de contato. Se observarmos bem, podemos reconhecer também as sutis diferenças existentes entre os dois grandes órgãos humanos de contato, os pulmões e a pele. O contato da pele é muito direto, é mais palpável e intenso do que o dos pulmões, e depende de nossa vontade. Podemos tocar em alguém ou deixar que nos toquem. O contato que estabelecemos através dos pulmões é indireto, mas compulsório. Um sintoma de doença pode, muitas vezes, ser atribuído alternadamente a estes dois órgãos de contato, a pele e os pulmões. Tal como as erupções cutâneas, a asma também é uma expressão do mesmo problema de personalidade – contato, toque, relacionamento. A relutância em estabelecer contato através da respiração pode surgir na forma de espasmos durante a expiração, como acontece com a pessoa asmática.
Depois que a doença persistiu por um longo tempo, pode ocorrer uma ampliação e uma consolidação do tórax, criando uma condição a que em geral nos referimos como tórax em forma de barril. A aparência do paciente é excelente; no entanto, o peito largo permite apenas um restrito volume respiratório, visto que não existe elasticidade dos tecidos. O conflito não poderia se expressar de forma mais clara: pretensão e realidade. O fato dos músculos peitorais estarem tão hipertrofiados demonstra a existência de uma boa porção de agressividade. Os asmáticos nunca aprenderam a articular verbalmente sua agressividade de forma adequada. Por conseguinte, não só estão ansiosos por “demonstrar importância” como na verdade se sentem “prestes a explodir”. Entretanto, toda a intenção que têm de dar vazão à sua agressividade por meio de gritos ou queixas, “fica presa na garganta”. As formas agressivas de auto-expressão se voltam para o nível físico onde se manifestam como tosse e expectoração.
Começamos a vida com nossa primeira respiração; terminamos a vida num último suspiro. Ao respirarmos pela primeira vez damos o primeiro passo para o mundo exterior, livrando-nos de nossa união simbólica com a mãe: tornamo-nos independentes, auto-suficientes, livres. Toda dificuldade respiratória, muitas vezes, é sinal de medo, medo de dar o primeiro passo rumo à liberdade e à independência. A vida nos parece um acontecimento singular, e quase não temos condições de perceber a ligação entre expirar (soltar, morrer) e inspirar (recomeço, renascimento, continuação)
A Inspiração:
Força de vontade e atividade são atributos da inspiração. O movimento da inspiração surge da contração da musculatura da respiração. Esticar o diafragma causa uma pressão na região do peito, pelo que o ar da inspiração por assim dizer é sugado para dentro. Portanto, primeiro existe uma tensão muscular que provoca a inspiração. Simbolicamente, ela representa a parte ativa e, desse modo, a parte masculina da respiração. Para nós a inspiração é a representante simbólica de todas as forças ativas existentes no nosso ser, também aquelas que ainda não usamos. Na nossa disposição de inspirar podemos, consequentemente, reconhecer o quanto ousamos entrar em regiões novas, imprevisíveis da nossa vida. A inspiração mostra até que ponto estamos dispostos a lutar pelos próprios objetivos. Na inspiração está o recomeço simbólico. Com ela saímos para o mundo como o jovem herói, para dominá-lo e enfrentar a nossa tarefa. No momento de buscar ar nós deixamos o porto seguro do nosso ambiente habitual. A expiração deve ser leve, solta, natural. A expiração pode ajudar-nos a ter acesso ao mundo feminino, à receptividade, à entrega . Cada respiração consciente antes de pegarmos o telefone ou subirmos no carro, pode transformar-se num ritual significativo de desapego, que com o tempo pode aproximar-nos do nosso lado feminino e, desse modo, do nosso equilíbrio interior.
A Expiração:
A expiração começa no auge da inspiração, quando pegamos tudo o que podíamos pegar. Para que a energia vital possa fluir temos de superar a nossa exigência de posse. Não há nada que devamos fazer para expirar com sucesso. A caixa torácica está expandida, os músculos respiratórios estão contraídos e assim que liberamos a tensão, a respiração flui por si só e para fora. Quanto maior a consciência com que nos entregamos a esse momento do acontecimento, tanto mais harmoniosa e completamente o nosso pulmão se esvaziará. Também podemos expelir ativamente a nossa respiração, mas isso gasta muito mais energia e diminui a fase de sucesso em que podemos obter força para a inspiração seguinte. No âmbito fisiológico é a respiração que livra as células corporais dos seus detritos. Somente quando as substâncias usadas saem do nosso organismo, estamos em condições de captar novas energias.
Resumindo:
Problemas respiratórios simbolizam principalmente os seguintes temas:
- Contração – descontração
- Receber – dar
- Contato – resistência ao contato
- Liberdade – restrição
- O desejo de se isolar, desejo de poder e sensação de inferioridade, recusa a enfrentar o lado sombrio da vida etc…
Nas palavras de Göethe:
Há duas bênçãos na respiração,
Absorver o ar e soltá-lo outra vez:
Uma nos pressiona, outra nos refresca,
Que mistura maravilhosa é a vida!
Visão do Dakshina Tantra:
A bronquite asmática é uma doença que tem uma estreita ligação com a região energizada pelo Anahata Chakra.
O Anahata está localizado no Sthula Shariram (corpo grosso), na região do esterno, e corresponde ao plexo nervoso cardíaco e pulmonar e à glândula endócrina Timo. São energizadas por este Chakra as estruturas que compõem a caixa torácica (costelas, esterno, clavículas, escápulas e vértebras torácicas). Este Chakra energiza, ainda, uma rede de nervos que forma o plexo braquial, ou seja, toda a musculatura acionada pelo plexo braquial (peitorais, deltóides, rombóides, serrátil, supra e intraespinhal, redondos e todos os músculos que movimentam os braços e as mãos).
O Dakshina Tantra prescreve uma série específica para o tratamento dos desequilíbrios respiratórios, chamada Série de Equilíbrio Respiratório ou Bronquite.
Efeitos da Série:
Com o tempo foi sendo observado que esta série não é adequada somente para asmáticos, mas também para pessoas com problemas como sinusite, enfisema pulmonar, para pessoas que respiram de forma inadequada, que se resfriam com freqüência etc.
Esta série prioriza a energização do Anahata Chakra, melhorando sobremaneira a respiração, ao mesmo tempo em que leva o aluno/paciente à percepção das suas dificuldades psicológicas, e uma impiedosa honestidade consigo mesmo, o que vai lhe facultar uma consciência clara de suas dificuldades, além de força e compreensão para superá-las.
Bibliografia:
- Tantraterapia – O caminho para a cura física, mental e espiritual
Paulo Murilo Rosas – Editora Ciência Moderna
- A Doença como Caminho
Thorwald Dethlefsen e Rüdiger Dahlke – Editora Cultrix
- A Respiração como Caminho da Cura
Rüdiger Dahlke e Andréas Neumann – Editora Cultrix